Helena Silva e Manuel Gonzaga
abriram na cidade de Chaves um espaço dedicado ao barro preto de Vilar de
Nantes, à cestaria e à tanoaria, preservando as tradições artesanais da
freguesia. Ela é neta e bisneta de oleiros e a ligação da sua família à olaria
atravessa várias gerações.
“A maior parte da minha família esteve ligada à olaria. Todos foram
quase oleiros, o meu bisavô, o meu avô, o meu pai e os meus tios avôs. O meu
pai foi dos últimos oleiros de Vilar de [Nantes]a trabalhar em grande
quantidade e eu aprendi com ele”, explica Helena Silva, natural da freguesia.
Segundo a responsável, a criação
do espaço pretende aproximar esta tradição do público e contribuir para a sua
divulgação.
“O espaço é nosso, o património é de nós todos, de Vilar de Nantes, do concelho
de Chaves. Queremos trazer para aqui, porque nós aqui temos um público mais
alargado, embora as raízes sejam Vilar de Nantes”, realça. “Queremos chegar a um público que serão os
infantários, as escolas, para divulgar a arte de criar, da Olaria da Cestaria.
É isso que esta arte precisa neste momento, de divulgação para darmos a
conhecer o que está um bocado esquecido no tempo”, afirma.
O projeto prevê a dinamização de
atividades como workshops e formações para garantia da continuidade destas
artes. “Viemos para aqui para estarmos
mais perto do público e para criarmos workshops, formações, tudo o que
possamos, de modo que esta arte não se perca”, acrescenta.
Algumas das peças expostas
pertencem à coleção privada da família, outras estão disponíveis para venda,
sendo que podem chegar a valores entre os 60 a 80 euros disse. “Há peças que foram feitas pelo meu pai e eu
decorei. O resto, sim, será para comercializar também, claro”.
Helena aprendeu com o pai esta
arte e explica como o barro ganha a cor preta. “A louça é encaixada num poço, que tem uma grelha ao meio. O que lhe dá
a cor preta é mesmo a falta de oxigénio. A peça é toda abafada e como não há
entrada nem saída de oxigénio, fica preta”.
“AS CESTAS SÃO UMA PAIXÃO”
No mesmo espaço, a cestaria
também tem destaque. Manuel Gonzaga, que se dedica à atividade em part-time,
sublinha que se trata sobretudo de uma paixão.
“Nós temos peças de museu efetivamente e quisemos mostrar isso, (…) mas também
queremos movimento, ação (…) Queremos que haja movimento nas nossas tradições,
nas nossas artes e elevar Vilar de Nantes a um patamar que merece”, diz
Manuel Gonzaga, um dos cesteiros da aldeia.
Segundo explicou, os preços de um
cesto variam entre 10 e 60 euros, dependendo do trabalho necessário para produzir
cada peça.
“Eu para fazer um cesto de 10 euros estou uma manhã inteira, sem contar
ir à serra [do Brunheiro]. É por isso que eu digo muitas vezes que eu nunca vi
nenhum cesteiro rico e a cestaria nunca pôs ninguém rico. Fazemos isto mesmo
por amor”.
PROJETO RECUPERA UMA TRADIÇÃO CARACTERÍSTICA DA FREGUESIA
Para o presidente da Junta de
Freguesia de Vilar de Nantes, Luís Costa, a iniciativa contribui para recuperar
uma tradição característica da freguesia.
“Este é um projeto que pertence a uma entidade privada, de qualquer maneira,
nós quando quisermos revitalizar esta questão do barro, da Olaria, digamos
assim, da Cestaria e da Tanoaria, estamos em consonância com eles”, salientou
durante a inauguração do projeto que decorreu na terça-feira, 10 de março.
FORNO DE COZEDURA DO BARRO NA FREGUESIA SERÁ ALVO DE REQUALIFICAÇÃO
A Junta de Freguesia de Vilar de
Nantes vai recuperar o forno tradicional
de cozedura do barro, situado no centro da aldeia, perto da casa que se
acredita ser dos pais e avós de Luís Vaz de Camões.
“Esta foi a última cozedura que se fez neste período. A partir daqui
vai entrar em obras”, adianta o autarca de freguesia.
“Fizemos a última cozida na semana passada. E desenfornamos algumas
peças que estão aqui. O forno vai entrar em obras, vamos fazer algo mais atual,
porque como se cozia há 50 anos, hoje em dia já não é viável”, conta Manuel
Gonzaga. “A ideia é criar também
laboratórios. Já está tudo pensado e estruturado. Agora as coisas levam o seu
tempo”, afirma.
O objetivo passa por reforçar a
identidade da freguesia e criar novos pontos de interesse para o turismo. “Queremos orgulhosamente deixar o meu último
mandato com uma identidade própria do barro”, termina por dizer Luís Costa.
A inauguração da loja do Barro
Preto aconteceu na terça-feira, 10 de março, e contou com a presença de várias
pessoas da comunidade, incluindo o presidente da Junta de Freguesia de Vilar de
Nantes, Luís Costa, o presidente da Câmara Municipal de Chaves, Nuno Vaz e elementos
do executivo, Tiago Caldas e Paula Chaves, assim como o presidente da Junta de
Freguesia de Santa Maria Maior, Hugo Silva, e da Freguesia da Madalena e Samaiões,
João Pinto.
O novo espaço dedicado ao artesanato
tradicional de Vilar de Nantes reúne peças de barro preto, cestaria e tanoaria,
numa iniciativa de Helena Silva e Manuel Gonzaga, dois habitantes da freguesia
situada a cerca de quatro quilómetros da cidade. O espaço está aberto ao
público, das 10h às 18h.
Sara Esteves
Fotos: Carlos Daniel Morais