Criador em Vila Pouca de Aguiar preserva raça autóctone do burro mirandês

A paixão pelos burros começou na infância, quando a família utilizava animais cruzados para as lides do campo. O contacto com a raça mirandesa surgiu mais tarde, através de uma associação do Burro Mirandês. “Em contacto com um familiar do distrito de Bragança, surgiu falarmos do burro mirandês. Entrámos em contacto com a associação e, num almoço de família, pesquisámos na internet sobre esta raça”, recorda. Em 2008, a família entrou em contacto com a associação da raça e adquiriu a primeira burra mirandesa.

PAIXÃO DE INFÂNCIA

“Esta paixão pelos burros, pela raça do burro mirandês já vem desde novo. Na nossa família, o meu avô sempre teve uma burra para trabalhar, para fazer o trabalho do campo”, relembra.

Durante muitos anos, a família manteve apenas animais cruzados, usados sobretudo para pequenas lides agrícolas. “Sempre me lembro de termos uma burra, tínhamos na altura só um exemplar que era para nos ajudar a fazer alguns trabalhos do campo, que não dão para fazer com máquinas”, explica.

ASSUMIR O PROJETO E AUMENTAR O EFETIVO

Apesar de ter chegado a manter quatro ou cinco animais, problemas de saúde do avô e do pai levaram à redução do efetivo. A partir de 2018, Mário André assumiu o projeto. “Neste momento consigo ter nove burros mirandeses. Tenho ainda três ou quatro dos cruzados, mas a minha meta é ter, pelo menos, um macho e 10 a 11 fêmeas, o máximo para termos produção”, afirma Mário Pinto, bombeiro de profissão.

UMA RAÇA AUTÓCTONE EM RISCO

O criador sublinha que o burro mirandês esteve em risco devido ao envelhecimento da população rural. “A nossa população está cada vez mais envelhecida e as pessoas iam usando os burros para tratar das lides do campo. Mas com o passar dos anos, as pessoas deixam de ter esta atividade. Foi-se acabando aqui um bocadinho com o burro mirandês”.

TEMPERAMENTO DÓCIL: “TÊM O NOME DE BURRO, MAS SÃO MUITO INTELIGENTES

Conhecido pelo temperamento dócil, o burro mirandês destaca-se também pela inteligência. “É um animal muito dócil, basicamente fazemos o que queremos deles, consegue-se tudo. Têm o nome de burro, mas são muito inteligentes”, garante, acrescentando que o comportamento depende muito da educação dada desde cedo. “Os animais são consoante o dono permite”.

ALIMENTAÇÃO E BEM-ESTAR ANIMAL

A alimentação dos animais é feita de forma controlada, respeitando as necessidades específicas da espécie. Durante o dia, os burros permanecem no lameiro, em regime de pastoreio, e à noite recolhem aos estábulos, onde têm sempre acesso a feno, palha e água. O criador alerta que os burros não devem alimentar-se apenas de erva verde, sendo a forragem seca essencial para a sua saúde digestiva.

NOMES PRÓPRIOS E ASSISTÊNCIA NOS PARTOS

Todos os animais têm nome próprio. O macho reprodutor chama-se Rio, enquanto as fêmeas incluem Joaninha, Estrelinha, Sopa, Preta, Uva e Ortiga. O mais recente nascimento, Valente, exigiu intervenção humana. “Este último ajudámos eu e o meu pai a fazer um parto”, relata, explicando que contou com o apoio remoto da Associação do Burro Mirandês e de um veterinário através de videochamada.

É sempre bom a gente ajudar, porque é um ser vivo. É mais uma vida que estamos ali a ajudar”, diz, destacando os cuidados necessários após o nascimento.

APOIO ASSOCIATIVO E EXIGÊNCIAS DA CRIAÇÃO

O acompanhamento da Associação do Burro Mirandês, sediada em Miranda do Douro, é regular. “Em três ou quatro meses fazem uma visita e vemos ao nível de parasitas e dos dentes”, explica, salientando a importância da saúde dentária.

UMA HOMENAGEM EM FORMA DE LEGADO

Atualmente, os burros já não são usados como força de trabalho, servindo sobretudo para limpeza dos terrenos e convívio familiar. “É uma forma de distração para ele e para mim nas horas vagas”, refere, falando do pai já aposentado.

Mais do que um projeto pecuário, a criação dos burros mirandeses assume um valor simbólico. “É uma espécie de homenagem ao meu avô e de seguir o legado que ele deixou”.

A raça distingue-se pela pelagem castanha, focinho e ventre brancos, porte robusto e pelas orelhas com pelos longos, conhecidas localmente como “campainhas”, características do burro do Planalto Mirandês.

A criação do Burro de Miranda, raça autóctone portuguesa, é promovida pela Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino (AEPGA), fundada em 2001 para proteger e valorizar este património, com o apoio técnico e centros de acolhimento. Segundo a AEPGA, a criação exige identificação oficial (DIE), cuidados sanitários, cerca de 0,25 hectares de pasto por animal e apoio de veterinários e ferradores. 

 

Sara Esteves e Ângela Vermelho

Fotos: Ângela Vermelho