CPCJ de Chaves acompanhou em 2025 mais de 220 processos de crianças e jovens

A CPCJ de Chaves acompanhou, ao longo de 2025, um total de 229 processos relacionados com situações de risco para crianças e jovens, tendo sido registada uma tendência de aumento de casos, segundo o Presidente da Comissão de Chaves, Filipe Gonçalves.

De acordo com o sociólogo, a violência doméstica representa a principal problemática, seguida do abandono ou absentismo escolar, comportamentos de risco por parte dos jovens e exposição a comportamentos que colocam em causa o bem-estar. Foram ainda registados casos de maus-tratos físicos, de maus-tratos psicológicos e indiferença afetiva, de abuso sexual e de exploração infantil.

“Existe uma heterogeneidade de problemáticas e compete à CPCJ estar preparada para as identificar e ter estratégias para retirar as crianças e jovens do perigo”, afirmou Filipe Gonçalves, Presidente desta comissão desde outubro de 2025.

O responsável pela CPCJ de Chaves sublinha que a violência doméstica nem sempre se traduz apenas em agressões físicas, incluindo também dimensões psicológicas e emocionais. “Violência doméstica não é só violência física entre marido e mulher, é a violência onde aquele agregado familiar coabita e há vários tipos de violência, chantagem emocional, violência psicológica”, explicou.

“Cada vez mais hoje em dia, sem querer, os pais exercem violência psicológica para com os filhos, através de chantagens, através de manipulação. Por exemplo, quando uma criança está a fazer uma birra e um pai ou uma mãe lhes dá o telemóvel para pararem aquela birra, estão a ensinar-lhes a fazer manipulação, a fazer chantagem. E as crianças vão ser aquilo que nós lhes damos”, realça relembrando o slogan da campanha do mês de abril da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens.

O Presidente da CPCJ destaca ainda que os dados podem ser “um bocadinho enganadores”, uma vez que algumas sinalizações dizem respeito a contextos em que as crianças não presenciaram diretamente situações de violência, mas integram agregados familiares onde estas ocorreram.

De acordo com a CPCJ, a Comissão privilegia, sempre que possível, a permanência das crianças e jovens no seu meio familiar. “Só em situações extremas ou de risco de perigo imediato de vida é que aplicamos medidas nesse contexto”, afirmou, referindo-se à retirada da criança do agregado familiar.

Nesses casos, podem ser aplicadas medidas mais gravosas, como o acolhimento residencial ou, em última instância, encaminhamento para adoção, explica.

Segundo a CPCJ de Chaves quem mais sinaliza são as forças de segurança, os estabelecimentos de ensino e de saúde, seguida de sinalizações anónimas que maioritariamente chegam através do site da Comissão Nacional.

Após a sinalização, é realizada uma avaliação diagnóstica da situação, que pode durar até seis meses, embora a CPCJ admita que tenta encurtar esse prazo sempre que possível.

“Se temos uma criança ou um jovem que está em risco e em perigo, tentamos fazer a avaliação com o menor tempo de duração possível”, afirmou.

O processo envolve entrevistas, visitas domiciliárias e articulação com várias entidades. Durante esta fase, Filipe Gonçalves adianta que pode já ser possível perceber se a situação de perigo se confirma e, nesse caso, são adotadas estratégias para a resolver. Caso se mantenha ou existam dúvidas, pode ser aplicada uma medida de promoção e proteção.

A Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Chaves, composta por seis técnicos, e dividida em comissão restrita e alargada, é apontada como uma das que regista maior volume processual no distrito, realidade que o responsável associa a fatores como carência social, diversidade cultural, localização geográfica e aumento da população imigrante.

“Somos um município com muita carência social”, afirmou, acrescentando que “há muitos imigrantes” e “um grande aglomerado de etnias”, fatores que podem contribuir para o aumento das situações acompanhadas.

A intervenção da CPCJ assenta maioritariamente no trabalho em rede com entidades como escolas, forças de segurança, serviços de saúde e equipas de ação social, sendo a comissão restrita responsável pela intervenção direta nos casos sinalizados e a comissão alargada mais focada na sensibilização e prevenção.

Na maioria das situações, a atuação depende do consentimento dos pais ou responsáveis legais. Na sua ausência, os casos podem ser encaminhados para o Ministério Público.

O responsável defende uma maior aposta na prevenção, e alerta que as ações de sensibilização não devem limitar-se a momentos específicos como o mês de abril, dedicado à prevenção dos maus-tratos na infância, e alerta para a prevenção do abuso sexual a nível desportivo, sobretudo em desportos individuais.

Filipe Gonçalves evidencia ainda o desconhecimento da população sobre o papel da CPCJ, o que pode constituir um obstáculo à procura de ajuda. O Presidente da CPCJ de Chaves defende uma intervenção contínua e articulada com a comunidade, e reforça que “quanto mais apostarmos na sensibilização e na prevenção, menos problemas temos depois naquilo que é a nossa forma de atuar”.

Sara Esteves

Fotos: Carlos Daniel Morais