Ecopistas afirmam-se como motor de valorização do território

O Welcome Center, em Pedras Salgadas, acolheu na quarta-feira, dia 20 de maio, o 9º Encontro de Parceiros das Ecopistas de Portugal que reuniu entidades nacionais e internacionais ligadas à mobilidade suave e ao turismo sustentável, numa iniciativa que destacou o papel das antigas linhas férreas na valorização dos territórios e na promoção da coesão territorial.

As ecopistas resultam da requalificação e aproveitamento de linhas de caminhos de ferro desativadas, criando vias de comunicação direcionadas a deslocações não motorizadas, ou seja, a peões, bicicletas e outros meios de mobilidade suave, que originam percursos turísticos, desportivos, educativos e de sensibilização ambiental.

Segundo a autarquia de Vila Pouca de Aguiar em documento enviado, a Ecovia Internacional do Tâmega e Corgo inicia na antiga estação ferroviária dos caminhos de ferro de Vila Real e termina na Curalha, em Chaves. Tem um comprimento total de 55 quilómetros, sendo que 23 são no concelho aguiarense, passando por Tourencinho, Gralheira, Zimão, Parada de Aguiar, Vila Pouca de Aguiar, Nuzedo, Sampaio, Vila Meã, Pedras Salgadas e Sabroso de Aguiar.

Ainda de acordo com o mesmo documento, a antiga Linha do Corgo foi “planeada desde o século XIX” e servia “os municípios de Chaves, Vila Pouca de Aguiar, Vila Real, Santa Marta de Penaguião e Peso da Régua” pelo que “ficou historicamente conhecida como Linha do Corgo”. Posteriormente, no âmbito do projeto Ecovia de Chaves, “adotou‑se inicialmente a designação Ecovia do Tâmega, também utilizada no troço transfronteiriço entre Chaves e Verín”, passando depois para uma identidade comum para a região e denominando-se “Ecovia Internacional do Tâmega e do Corgo”.

 

“Os problemas de uns podem ser as soluções de outros”

Segundo Paulo Rodrigues, gestor do Plano Nacional de Ecopistas da Infraestruturas de Portugal, as reuniões da Rede de Parceiros das Ecopistas de Portugal começaram ainda no tempo do COVID 19, “com uma ideia entre nós [Infraestruturas de Portugal] e o Turismo de Portugal” para “poder dar alguma dinâmica às ecopistas”.

Começaram estas reuniões no formato online, devido à pandemia e, posteriormente já se reuniam presencialmente e faziam-no duas vezes ao ano. Atualmente o encontro é anual e já somam nove reuniões.

O objetivo, diz Paulo Rodrigues, é “juntar todos os parceiros, Câmaras Municipais e comunidades intermunicipais, que têm ecopistas no seu território ou que têm linhas desativadas que possam ser transformadas em ecopistas, e juntá-los todos para falarmos porque, muitas vezes, os problemas de uns podem ser as soluções de outros”.

O Gestor do Plano Nacional de Ecopistas explica que os encontros servem para os intervenientes conhecerem e perceberem as realidades de outros locais e que ideias podem retirar para implementarem no seu território. “Fazemos uma espécie de brainstorming para que as pessoas possam também ver que outras realidades temos porque, num território tão diverso, as ecopistas não são todas iguais, as paisagens não são todas iguais, os territórios e as pessoas não são iguais, assim como os desafios de manutenção e de conservação”.

Para Paulo Rodrigues, os encontros são vantajosos e “o benefício é sempre total, na minha opinião” porque, revela, as comunidades intermunicipais e as câmaras municipais que muitas vezes não têm ainda ecopista no seu território, mas têm vontade de a ter, “quando vêm a estas reuniões, percebem a dinâmica que existe à volta das ecopistas”. O representante da Infraestruturas de Portugal reforça que as entidades ficam a conhecer “quer a abrangência, quer o potencial que têm do ponto de vista turístico e do ponto de vista das comunidades locais, que as utilizam também para lazer no dia a dia, e acabam por a ganhar um elã, para poderem trabalhar e para poderem ter as ecopistas também no seu território”.

 

Rescaldo de oito edições

Ao longo dos oito encontros da Rede de Parceiros das Ecopistas de Portugal já se alcançou “muita visibilidade nacional e internacional”, aponta Paulo Rodrigues. “Alguns dos parceiros que estão aqui são sócios da Associação Europeia de Vias Verdes, da qual a Infraestruturas de Portugal faz parte também do comité executivo, e já temos ecopistas com prémios internacionais, exatamente por causa da visibilidade”. Neste sentido, o objetivo é, segundo o entrevistado, “mostrar para fora aquilo que são as ecopistas, o potencial que têm em termos de trazer pessoas ao seu território”.

Quanto a próximos passos, o gestor do Plano Nacional de Ecopistas avança que pretendem “manter, crescer, termos uma dinâmica de conservação e manutenção, que é muito importante, porque não basta construir as ecopistas, há que, depois, termos a capacidade de as manter e de continuar a ter uma oferta de produto que as pessoas tenham gosto em utilizar”. Paulo Rodrigues considera que se a infraestrutura não estiver cuidada, afasta as pessoas. “Se tivermos mobiliário urbano degradado, se não tivermos iluminação, se tivermos barreiras ou árvores caídas, mato ou vegetação a ocupar ecopista, as pessoas deixam de ir e o território perde”.

 

Portugal tem 512 quilómetros de ecopistas construídos

É também importante, frisa Paulo Rodrigues, “potenciar o crescimento” uma vez que “Portugal tem cerca de 1000 quilómetros de linhas desativadas, nem todas são passíveis de ser transformadas em ecopistas, mas, neste momento, já temos 738 quilómetros concessionados a autarquias, a câmaras municipais. Desses 738 quilómetros, já temos 512 quilómetros de ecopistas construídos em Portugal e o objetivo é conseguirmos fechar esta rede nacional que temos e manter este plano vivo”.

O responsável pelo Plano Nacional de Ecopistas da Infraestruturas de Portugal salienta ainda que o processo de transformação das ecopistas inclui, muitas vezes, os próprios edifícios adjacentes às antigas linhas férreas. Dá o exemplo do edifício do Welcomer Center como “uma estação recuperada, que também é muito importante, e nós sabemos que, muitas vezes, nas linhas desativadas há 40 anos não passa lá o comboio, e os edifícios começaram-se a degradar. As próprias ecopistas são uma forma de recuperar este património imóvel, seja para efeitos de hotelaria, de restauração, posto de turismo, como é o caso de Pedras Salgadas, ou serviços para a própria Câmara Municipal, como acontece em Vila Pouca de Aguiar”, referindo-se à antiga estação ferroviária que serve de instalações à Universidade Sénior Terras de Aguiar (USTAG).

“Ao trazermos esses serviços para dentro das antigas estações, fazemos com que as pessoas venham e regressem também outra vez às antigas estações”, concluiu Paulo Rodrigues.

 

Ecopista do Corgo distinguida com prémio EGWA

Ana Rita Dias, Presidente da Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar, relembra que no ano passado, em outubro, o município recebeu o terceiro prémio da EGWA (European Greenways Award), na categoria “Excelência”. “A nossa ecopista é um exemplo a nível europeu, porque já recebeu esta distinção o ano passado, e é de extrema importância termos estes parceiros a reunir aqui, a conhecer o nosso território, e também acaba por ser uma divulgação da nossa ecopista e um convite para que a venham visitar”.

A representante do município sinaliza o facto de este encontro ter sido realizado em solo aguiarense como um “momento de promoção e divulgação a nível internacional da nossa ecopista e, desta forma, também conseguir trazer mais gente ao território”. Refere ainda que se tratam de “reuniões estratégicas e de apresentação de outras ecopistas a nível internacional para que possamos replicar nos nossos territórios”.

 

“As antigas linhas de comboio do Corgo eram linhas de ligação, de coesão”

“Desde há alguns anos para cá, fazermos este investimento, desde que a linha deixou de ter utilidade, e darmos uma nova utilidade e uma nova vida a esta linha que unia territórios é de extrema importância para nós”, destaca Ana Rita Dias, que acrescenta que “estamos ligados a Vila Real e a Chaves, ainda que não tenhamos uma linha de comboio como nós gostaríamos, mas temos uma ecopista que mobiliza pessoas entre territórios e, portanto, há uma coesão territorial”.

A presidente do município aguiarense admite que seria importante haver uma ligação de norte a sul do país. “Seria muito interessante termos uma coesão, de norte a sul do país, e conseguirmos, através destas ecopistas, fazer ligações e conseguirmos uma coesão territorial ainda maior”. Ana Rita Dias acredita que nos encontros “se debatam estas estratégias com o Turismo em Portugal, com as CCDR [Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional] e com as CIM [Comunidade Intermunicipal] para que isso seja uma realidade”.

No decorrer do evento, e perante um representante do Turismo de Portugal, João Portugal, e de Paulo Rodrigues, gestor do Plano Nacional de Ecopistas da Infraestruturas de Portugal, Ana Rita Dias aproveitou o momento para abordar um tema para o qual a autarquia necessita de apoio. “O município tem intenção de fazer uma ligação, em segurança, da nossa ecopista aos estabelecimentos de ensino, nomeadamente à Escola Sede, à Escola Secundária, ao Pavilhão e ao Complexo Desportivo”.

A Presidente explica que o Complexo Desportivo já tem “uma ligação vinda desta zona norte, mas seria interessante conseguirmos também a ligação da zona sul ao Complexo Desportivo, assim como aqui em Pedras Salgadas conseguirmos fazer aquela ligação à escola e ao pavilhão”. A autarca reforça que “seria interessante para os nossos alunos, para a nossa comunidade, termos as ciclovias ligadas entre os espaços que são mais utilizados pelos jovens e por crianças, mas em segurança, como é evidente, para eles também poderem começar a utilizar as suas bicicletas de forma saudável e uma mobilidade sustentável dentro do nosso território”.

A reunião foi moderada por Julieta Fradeira, técnica superior de Turismo da Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar, e contou com as intervenções de Ana Rita Dias, presidente do Município aguiarense, de Paulo Rodrigues, das Infraestruturas de Portugal, e de João Portugal, do Turismo de Portugal. No formato online também interveio Marcel Gawron, da Polónia, que apresentou projetos de ecopistas, e Dominika Zareba, manager da European Greenways Association.

Para terminar a manhã, houve ainda espaço para uma visão local da ecopista do Tâmega e Corgo proveniente de um operador turístico. Após o encontro de parceiros, durante a manhã do dia 20, realizou-se uma visita técnica à ecopista do Corgo da parte da tarde, com uma prova da água de Pedras Salgadas e uma caminhada até ao albergue de Sabroso.

A nível da rede de parceiros das ecopistas de Portugal, estiveram ainda presentes na nona edição representantes do Turismo do Porto e Norte, do Turismo Centro, e de vários municípios que pertencem à rede de parceiros das ecopistas.

Recorde-se que está patente até junho, no Welcome Center, em Pedras Salgadas, a exposição “O Legado Ferroviário”, que contou com o contributo de várias pessoas na cedência de diversos artigos, nomeadamente, de José Dias e de Marina Apolinário, assim como da empresa Infraestruturas de Portugal.

 

Texto e fotos: Ângela Vermelho


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26/05/2026

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