Comerciantes e utilizadores alertam para a degradação da Central de Camionagem de Vila Pouca de Aguiar
Alguns comerciantes e utilizadores denunciaram problemas relacionados com infiltrações de água, humidade e desleixo na manutenção do edifício da Central de Camionagem de Vila Pouca de Aguiar, por parte do município. A autarquia garante ter conhecimento e admite que tem previsto um projeto de requalificação da infraestrutura.
Ermelinda Sousa tem uma loja de
artesanato e artes decorativas na Central de Camionagem há quase 15 anos. Além
da pintura em peças de barro, madeira, vidro e ferro, também tem produtos em
tecido e em papel para ímanes que, com as condições do espaço, “se estragam
muito facilmente”, refere.
A lojista adianta que “com os
dias de chuva, começa a haver infiltrações. Se forem poucos dias, não se
espalha muito, e eu consigo resolver a situação”, referindo-se a um sistema
desenvolvido por si, de forma a que a infiltração na porta da loja seja
amparada por um recipiente que, posteriormente, faz com que a água seja escoada
para um outro recipiente maior e a questão fica, diz, controlada. Contudo, “se
forem vários dias de chuva, espalha-se pela placa e não posso trabalhar, porque
pinga por toda a loja”. Face a esta situação, Ermelinda Sousa colocou uma lona
a amparar a água que lhe cai do teto em várias zonas da loja, que faz com que
as peças “fiquem manchadas e outras estragadas”, explica. Avança ainda que ao
longo dos anos já teve “várias peças estragadas”.
Há três semanas que tem o seu
estabelecimento fechado por não ver reunidas as condições de segurança para si
e para os seus produtos, e ainda pelo facto de que o candeeiro que tem no teto
da sua loja já ter também água por dentro. O problema não é recente, frisa a
artesã, “isto está assim há 14 anos”.
Foi para o espaço em março de
2011 e os problemas começaram “logo por altura do Natal, até me lembro que foi
no dia de consoada, vim trabalhar de manhã, cheguei aqui e tinha tudo molhado”.
Também é certo que, nos dias de chuva, já sabe que tem de se preparar. “Sempre
que chove, ou que há previsão de chuva intensa ao fim de semana, por exemplo,
em que eu não venho cá, já deixo tudo preparado com os recipientes vazios para
apanhar toda a água que puderem, e já sei que isto vai acontecer, isto já está assim
há anos. Basta ter recipientes mais ou menos grandes que dê para aguentar dois
dias”. Apesar de estar habituada a esta situação que ocorre na porta e que
considera menor, o problema tem vindo a intensificar-se e já ultrapassa este
sistema que desenvolveu para a porta, incidindo também no teto da loja.
Afirma que já reportou a situação
à Câmara Municipal “dezenas de vezes, já fiz muitas vezes por telefone, presencialmente,
e ultimamente tenho feito por e-mail. Este inverno já reportei duas vezes por
e-mail”. Já presenciou uma visita por parte dos técnicos do município e soube
de uma segunda visita quando não estava na loja, “mas só vêm ver, e às vezes
nem é com olhos de ver”.
A lojista afirma que não tem
recebido respostas por parte da autarquia e que quando “estão aqui, dizem que
vão ver, vão limpar as caldeiras porque parecia que estavam sujas, tinham
folhas, mas nem isso vi fazer”.
“Se nós não estivéssemos aqui, isto era o abandono total”
Ermelinda Sousa não fala apenas
do seu espaço, mas também da Central em si. “É a Central inteira, porque são as
paredes cheias de água, de humidade, cheias de teias de aranha, água no chão,
principalmente no piso inferior, tudo sujo, e não está mais sujo, porque nós
vamos reclamando ao longo dos anos, embora a limpeza esteja aquém”. A artesã
sublinha que sente algum desleixo por parte do município, “se nós não
estivéssemos aqui, isto era o abandono total”.
Também é esta a opinião de Manuel
Machado, colaborador da empresa AguiarFloresta, com duas lojas ocupadas na
mesma estrutura que, apesar de não terem danos, demonstrou preocupação com a
imagem que a Central de Camionagem passa sobre o município.
“Uma central de camionagem numa vila é a principal porta da entrada”
Refere que a partir da época
primaveril, Vila Pouca de Aguiar é visitada por dezenas de autocarros com
turistas para visitas ao concelho e que o que veem quando chegam a Vila Pouca
de Aguiar não condiz com o que o município pretende passar. “Quando nós apregoamos
que o Alto Tâmega tem que se virar para fora, e tem que captar turistas e
visitantes, se na principal porta de entrada são recebidos desta forma, imagine-se
o resto do concelho e a impressão com que as pessoas devem ficar. Há aqui um contrassenso, parece mais um edifício
abandonado do que uma central de camionagem”.
Manuel Machado levanta ainda
outro tema relativo à “saúde dos lojistas” mais afetados, no qual não se
inclui, e à imagem que o estado das lojas passa a potenciais clientes. Na sua
visão, deixa ainda uma questão no ar, “como é que conseguem passar o inverno
inteiro a trabalhar com esta humidade?”.
Manuel Machado sublinha que a
Central de Camionagem “sofreu obras de requalificação recentemente e, por aquilo
que se nota, talvez essas obras não fossem aquilo que a estação realmente
estava a precisar, porque continua num estado de degradação tal, que é visível
em qualquer lugar, em qualquer sítio”. Relata também diversos problemas, como
“humidade em todo o lado, pinturas a rachar, água a ser apanhada por caçoilos”
e também as más condições das casas de banho. Quanto às obras de requalificação,
disse ter “quase a certeza que foram gastos mais de 500 mil euros na
requalificação e fizeram a substituição da cobertura”, todavia, “a avaliação
técnica foi malfeita e a água efetivamente não entrava para o telhado, como se
comprova, e só pode ser infiltrações pelas paredes, já que este edifício está
feito há mais de 30 anos e nunca foi feito nenhum arranjo exterior da fachada”.
Quando questionado sobre se se
verificam estas situações apenas em períodos de chuva mais intensa, Manuel
Machado responde que “este ano tem sido um ano excecional de chuva, e podia
levar a crer que seria por causa disso, mas não é, porque isto já se faz sentir
há mais de 10 anos e, entretanto, mesmo com as tais obras de requalificação, os
problemas continuam e acho que até se agravaram”.
“Não há uma resposta concreta”
Também Manuel Machado sustenta
que o problema “já foi reportado por mim pessoalmente, e já foi reportado, pelo
menos, por mais três lojistas aqui da Central. Também tem sido divulgado nas
redes sociais por qualquer pessoa, principalmente nos últimos dias, e até na Assembleia
Municipal, da qual faço parte, eu próprio questionei o executivo para quando, e
se havia outra requalificação prevista”. Explica que “aquilo que nos foi dito,
a mim e aos membros da Assembleia na altura, foi que estariam a fazer um
projeto para estudar, e para ver se se conseguia fundos comunitários para
tentar fazer outra requalificação”.
Perante tal resposta, Manuel
Machado sublinha que o dia-a-dia nas instalações da Central não é fácil. “O
problema é que quem tem que estar cá todos os dias, não pode estar à espera que
haja um qualquer meio de financiamento, muito menos esperar que os técnicos da
Câmara se dignem a fazer um projeto que resolva este problema de uma vez por
todas”, reforça.
Câmara de Vila Pouca de Aguiar prevê obra de requalificação de 350 mil
euros na central de camionagem
A presidente da Câmara Municipal
de Vila Pouca de Aguiar, Ana Rita Dias, afirmou que está prevista uma obra de
requalificação da central de camionagem, num investimento de cerca de 350 mil
euros.
Em declarações Ana Rita Dias explicou que a autarquia tem conhecimento da situação e
que a intervenção resulta de uma candidatura já submetida. “Temos previsto uma
candidatura de 350 mil euros para intervir na central de camionagem e,
portanto, a candidatura está a decorrer e a obra irá ser feita, mas não poderá
ser com uma tempestade”, afirmou.
A autarca sublinhou que a central
de camionagem foi alvo de uma intervenção recente e que as condições
climatéricas vieram agravar. “A central de camionagem teve uma intervenção há
relativamente pouco tempo e acredito que estas chuvas todas não venham ajudar”,
referiu.
Ana Rita Dias revelou ainda que a
Câmara Municipal tentou intervir no local na quinta-feira, 05 de fevereiro,
para resolver uma situação de infiltração, mas que a ação foi impedida por um
comerciante. “Ainda hoje de manhã a Câmara Municipal foi à central de
camionagem para resolver uma situação de infiltração e o comerciante impediu o
acesso ao espaço”, disse, acrescentando que o comerciante “exigiu uma
indemnização pelo tempo em que estaria com o espaço fechado”.
A presidente da Câmara considerou
que a autarquia tem procurado minimizar os estragos dos comerciantes,
recordando que foi proposta uma solução alternativa. “A Câmara Municipal propôs
aos comerciantes a troca de espaço para que não ficassem com os danos na loja,
podendo disponibilizar outra loja”, explicou.
Relativamente à intervenção
prevista, Ana Rita Dias adiantou que o principal objetivo será a melhoria da
eficiência energética do edifício. “O objetivo é a eficiência energética,
essencialmente ao nível dos telhados e das caixilharias, mas outras obras
necessárias e urgentes também serão tidas em conta”, afirmou.
A autarca referiu ainda que
existem queixas antigas relativas ao espaço, salientando que algumas situações
deveriam ter sido sinalizadas anteriormente. “Os comerciantes dizem que há 14
anos que estão com problemas na central de camionagem e só agora é que decidem
fazer uma manifestação. (…) Se calhar
essas atitudes também deveriam ter sido tomadas em tempo oportuno”, concluiu,
garantindo que o município continuará a tentar resolver os problemas existentes.
Texto e Fotos: Ângela Vermelho
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10/02/2026
Sociedade
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