Produtor de Mairos aposta no porco bísaro para valorizar a raça e a economia local

Paulo Fernandes é produtor de porco bísaro na aldeia de Mairos, no concelho de Chaves, e tem vindo a apostar na criação deste animal de raça autóctone, como forma de preservar a tradição rural, promover a sustentabilidade e acrescentar valor económico ao território, aliando a produção pecuária à transformação artesanal de fumeiro, numa cozinha regional.

O porco bísaro é uma das raças autóctones mais antigas do país, com raízes em Trás-os-Montes. Esta raça suína era a subsistência de muitas famílias. Hoje, o porco bísaro é símbolo de identidade cultural, de resistência do mundo rural, de tradição e inovação.

Paulo Fernandes tem uma exploração na aldeia de Mairos e é Presidente do Clube de Produtores de Porco Bísaro de Chaves, entidade que reúne criadores dedicados à preservação e valorização desta raça autóctone.

RAÇA AUTÓCTONE “RARA” E DE ELEVADA QUALIDADE

O Presidente do Clube de Produtores de Porco Bísaro de Chaves explicou que o porco bísaro é uma raça autóctone, rara, resistente e bem-adaptada às condições climáticas do norte de Portugal, “destacando-se pela robustez e pela rentabilidade em termos de produção, embora demore algum tempo, porque é um animal de crescimento lento”.

Tem como características “o lombo curvado, a orelha bastante comprida, normalmente mais comprida que o focinho e, em termos de características organoléticas, apresenta elevada qualidade da carne. É uma carne mais marmoreada e suculenta, não se torna tão seca e isso faz com que se consiga fazer produtos de excelência como o fumeiro e derivados do porco”, diz.

A raça esteve perto da extinção nas décadas de 1980 e 1990, devido ao abandono da sua criação por parte dos agricultores, que optaram por raças exóticas de crescimento mais rápido.

“O porco bísaro foi deixando de ser produzido e foi quase extinto, mas algumas associações, nomeadamente a Associação Nacional de Criadores de Suínos de Raça Bísara (ANCSUB) foi dinamizando a raça”. A sua recuperação resultou do trabalho da ANCSUB, sediada em Vinhais, e de associações locais.

CHAVES LIDERA NÚMERO DE EXPLORAÇÕES

Atualmente, o concelho de Chaves é o que apresenta maior número de explorações de porco bísaro em Portugal. O Clube de Produtores de Porco Bísaro de Chaves conta com cerca de 30 associados, todos com animais devidamente registados na associação nacional.

O clube tem vindo a encaminhar novos agricultores e jovens interessados para a Associação Nacional, prestando apoio no processo de instalação e certificação das explorações. A associação procura ainda promover a produção de fumeiro de raça autóctone de forma artesanal.

“Um dos objetivos que temos é de introduzir na Feira dos Sabores de Chaves, uma ala de produtores locais onde o fumeiro artesanal e tradicional se destaque dos demais”, disse o Presidente do Clube de Produtores de Porco Bísaro de Chaves.

EXPLORAÇÃO SUSTENTÁVEL E ASSENTE EM PRÁTICAS DE ECONOMIA CIRCULAR

A exploração de Paulo Fernandes iniciou há cerca de 10 anos, com 18 fêmeas reprodutoras para produção de leitão bísaro certificado, num pequeno armazém, e conta atualmente com cerca de 50 matrizes e quatro machos reprodutores. Os animais são criados em regime extensivo ao ar livre, numa área aproximada de quatro hectares, sendo confinados apenas durante o período do parto, cerca de 15 dias antes.

“Trabalhamos numa ótica de economia circular onde conseguimos reaproveitar tudo, depois da produção do leitão, no final a matriz, a fêmea, quando sai da linha de produção do leitão é aproveitada para fazer o fumeiro tradicional. Portanto, existe aqui um ciclo que tentamos promover”.

A alimentação é sazonal e baseada em pastagens naturais, desde “nabo, abóbora, centeio e trigo”, prática que, segundo o produtor, contribui para a qualidade da carne e para o bem-estar animal.

“Esta exploração também tem uma ótica sustentável todas as práticas que vamos implementando na nossa exploração tem preocupações com o meio ambiente e sobretudo com o bem-estar animal”, explica este produtor.

LEITÃO CERTIFICADO E FUMEIRO ARTESANAL

Para além da produção de leitão bísaro certificado, destinado sobretudo à restauração do norte do país, a exploração incluiu recentemente uma cozinha de fumeiro tradicional, onde são produzidos, de forma artesanal, enchidos (alheira, linguiça, salpicão, os buchos, chouriço de abóbora), presuntos e carnes curadas ao fumo.

O fumeiro, comercializado sob a marca Sabores da Cota, é produzido de forma sazonal, pela mulher, Isa Duro, entre novembro e março, sendo vendido localmente, em feiras regionais e a clientes locais e no estrangeiro, “numa lógica de economia circular e de aproveitamento integral do animal”, destaca Paulo Fernandes.

PRODUTOR CONCILIA A ATIVIDADE PECUÁRIA COM A PROFISSÃO DE PROFESSOR

Professor de economia, em Chaves, Paulo Fernandes concilia a atividade agrícola com o ensino, sublinhando que a pecuária exige dedicação diária. “O dia começa bem cedo. Não há fins de semana nem feriados, mas faço aquilo de que gosto”, referiu.

O produtor defende que a valorização do porco bísaro e do fumeiro tradicional representa uma oportunidade para reforçar a identidade do território, fixar população e promover produtos endógenos, assentes num modelo de produção sustentável e com preocupação pelo bem-estar animal.

 

Sara Esteves

Fotos: Carlos Daniel Morais

 


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06/01/2026

Sociedade

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