Perto de 100 ignições e mais de 3.500 hectares ardidos no concelho de Chaves em 2025

Em oito meses, o concelho de Chaves registou 96 ignições em contexto florestal e dois incêndios com maior expressão, um que deflagrou na Bolideira e o incêndio de Cambedo que veio de Espanha, tendo sido atribuído a Vilar de Perdizes. Arderam 3 525 hectares e há a registar até ao momento, prejuízos em infraestruturas e em culturas.

Dos 96 incêndios que ocorrem no concelho de Chaves desde janeiro até ao momento, foram registados dois de maior expressão, o da Bolideira que teve início a 15 de agosto pelas 12h21 que afetou as freguesias de Águas Frias, Planalto de Monforte e Tronco, esta última mais afetada. Neste incêndio florestal foram consumidos 66 hectares (ha) e os prejuízos provisórios registados foram em três infraestruturas, numa habitação de 2º habitação, num armazém e num armazém devoluto. Ficaram destruídos 17,5 ha de áreas agrícolas (vinhas (0, 1ha); pomares (1,2ha); florestas de castanheiro (1,5ha)), 12,27 ha de floresta e 36 ha de matos. No terreno estiveram 113 operacionais dos bombeiros e sapadores florestais, apoiados por 29 veículos, três meios aéreos e uma máquina de rastos.

INCÊNDIO DE CAMBEDO CAUSOU MAIS ESTRAGOS

O incêndio com maior expressão, e que mais meios mobilizou, foi o incêndio de Cambedo que iniciou em Espanha tendo entrado em Portugal por Vilar de Perdizes, no concelho de Montalegre, e no concelho de Chaves, a partir da freguesia de Vilarelho da Raia por volta das 12 horas de 19 de agosto, tendo afetado as freguesias de Vilarelho da Raia, Bustelo, Ervededo, Outeiro Seco, e Vilela Seca, estas quatro últimas freguesias mais fustigadas e com uma área ardida superior a 600 ha/casa. Em Bustelo ardeu 64% do território e as demais na ordem dos 50%. Neste incêndio florestal foram consumidos 3 425,9 hectares (ha) os prejuízos provisórios registados foram em 12 edificações, numa habitação de 2º habitação em Outeiro Seco, em quatro habitações devolutas (Bustelo (1), Agrela (2), Couto de Ervededo (1)); em seis armazéns (Bustelo (1), Agrela (1), Outeiro Seco (3), União de Freguesias Santa Cruz Trindade e Sanjurge (1)), num armazém devoluto em Vilela Seca. Ficaram destruídas caixas de transformação elétrica no mercado do Gado, na zona industrial.

O incêndio afetou a atividade florestal, agrícola e apícola das freguesias afetadas. Ficaram destruídos 678,8 ha de áreas agrícolas (vinhas (124 ha); pomares (17,7ha); florestas de castanheiro (6 ha), destruição de 38 ha de pastagens, destruição de 1 390,7 ha de floresta, 1 266,4 ha de matos e 1,1 ha de galerias ribeirinhas. No terreno estiveram, não em simultâneo, 1018 operacionais em ações de comando, combate, planeamento e socorro, apoiados por 350 viaturas, 11 meios aéreos e cinco máquinas de rastos do Município de Chaves, Exército e ICNF. Este incêndio, que iniciou na terça-feira, 19 de agosto, foi dado como dominado na madrugada de quinta-feira, dia 21 de agosto, pelas 02h00. Na perspetiva humana não houve danos nem feridos.

INCÊNDIO DE GRANDE VIOLÊNCIA

Num balanço dos incêndios de 2025, realizado na quinta-feira, 28 de agosto, na Câmara Municipal, o autarca de Chaves referiu que o incêndio de Cambedo teve uma velocidade de progressão “muito grande”, não tendo apontado, como em outros concelhos, falta de operacionais e meios, tendo tido a ajuda de dois meios aéreos de Espanha.


“Estes incêndios têm na nossa perspetiva características muito peculiares, porque foram incêndios, que tiveram uma velocidade de progressão muito assinalável, nada comparáveis com incêndios de idêntica natureza e expressão nos anos anteriores, particularmente há três anos. E a verdade é que eles foram difíceis de combater com muitas projeções, apesar do empenhamento de muitos meios aéreos, muitos meios terrestres, muitos operacionais, a verdade é que o incêndio, que veio de Espanha, desenvolveu-se com uma grande intensidade, e em cerca de sete ou oito horas veio do Cambedo e parou, enfim, ali por Bustelo, por Outeiro Seco”, destacou Nuno Vaz.

O Presidente do Município de Chaves deixou uma palavra a todos os envolvidos na redução dos impactos dos incêndios. “Dar uma particular palavra a todos quantos estiverem envolvidos, com uma ênfase muito peculiar aos nossos bombeiros, a todos os bombeiros do país, tivemos bombeiros da região de Lisboa no combate a incêndio. Mas queria dizer, naturalmente uma nota particular aos bombeiros do nosso concelho, de Salvação Pública, Flavienses e de Vidago e à estrutura da proteção civil, ao trabalho diligente e sempre muito eficaz, quer da Guarda Nacional Republicana, quer da PSP e dos sapadores florestais e a todos quantos estiveram envolvidos neste processo”.

 “É TEMPO DE OLHAR PARA ISTO”

“Percebemos todos que a questão da defesa do nosso território, da nossa floresta, deve ser uma questão que vai envolver certamente mais autores e provavelmente vai haver decisões fundamentais, quer da mobilização de recursos, quer da forma como todos nos comportamos particularmente os proprietários e naturalmente toda a comunidade, se não seremos todos condenados a ter incêndios cada vez mais recorrentes e cada vez, com mais intensidade”, disse Nuno Vaz. O autarca flaviense considera que “é tempo de podermos olhar para isto, não como uma sina, mas como um problema pela dimensão que tem”. O Presidente considera que a solução “exige mais recursos e provavelmente uma diferente forma de gestão da propriedade, porque de outra forma, estaremos sempre a falar de danos de causas e de efeitos indesejáveis e temos naturalmente que parar este processo que parece que tem vida própria”.

PROPRIEDADE PLANEAMENTO FLORESTAL E COMPORTAMENTO HUMANO

O autarca socialista realça que na sua perspetiva os incêndios estão relacionados com “questões de propriedade” e “planeamento florestal” e que nesse sentido, “temos que conhecer a propriedade e os proprietários” e “perceber se em termos de planeamento florestal fará sentido ter floresta ou se faz sentido ter outras culturas”.

“Se floresta, que tipo de espécies e se é importante, por exemplo, encontrar soluções de gestão comunitária desse espaço, seja por freguesia, seja por localidade, porque é importante gerir. Depois, provavelmente todos, sem exceção, governo, entidades regionais, municípios, freguesias, proprietários, teremos provavelmente que investir todos mais neste domínio, para que, por exemplo, o número de incêndios possa diminuir”, diz, sem esquecer que “uma percentagem muito significativa dos incêndios resulta de ação criminosa”.

“A maior parte dos incêndios são resultantes de comportamento humano, uns intencionais, dolosos, criminosos e outros negligentes, sem intenção, desatendendo a regras, a práticas, a orientações e se calhar, os dois em conjunto estamos a falar de 80 a 90% dos incêndios. Naturalmente, há, como aconteceu este ano no país, incêndios que resultam dos fenómenos de natureza, de raios e de outras situações. Agora há uma parte muito significativa que tem a ver com o comportamento humano. Portanto, significa que, ou ajustamos o comportamento humano, ou eventualmente a realidade faz que o comportamento humano se altere”.

BALCÃO DE APOIO PRESTARÁ APOIO AOS AFETADOS NO ACESSO ÀS MEDIDAS DE MITIGAÇÃO

O Município de Chaves prestará apoio, através de um balcão a funcionar junto da Divisão de Desenvolvimento Económico (DDE), situada no Edifício Polis, na Rua da Trindade, no acesso às medidas de mitigação de incêndios rurais, criadas pelo Governo. As medidas visam “ressarcir no todo ou em parte, alguns dos prejuízos, como desde habitações até instalações agrícolas e equipamentos, também a parte produtiva, desde a floresta à parte mais ligada, digamos, às árvores de fruto”. A entidade gestora deste processo é a Comissão de Coordenação de Desenvolvimento Regional do Norte, em articulação com o município e Juntas de Freguesia.

Neste momento, os formulários de candidatura ainda não foram disponibilizados à autarquia. “Logo que essa informação seja disponibilizada, serão disponibilizados a todos os afetados para podermos, como sempre fazemos, de uma forma próxima, diligente e colaborativa, ajudar neste processo (…) e possamos atenuar aquilo que naturalmente foram os impactos muito negativos”.

Depois da identificação dos afetados e da tipologia dos danos, Nuno Vaz explica que há um período de validação e vistoria a realizar por técnicos da Comissão [CCDRN], em conjunto com técnicos do município, para validar os danos identificados, “para que o processo seja seguro e, ao mesmo tempo, com certeza de que efetivamente o que estamos a tratar é efetivamente o que está a ser alegado e não nada mais”, afirma.

PRODUTORES PECUÁRIOS AFETADOS ESTÃO A SER AJUDADOS

Os produtores pecuários que foram afetados estão a ser ajudados no sentido de ser assegurado alimento para os animais, garantiu o autarca. “Estamos a falar de um incêndio que consumiu importantes áreas de pasto, que consumiu em muitos casos, aquela palha e feno que ainda estava no terreno. Portanto, a preocupação máxima foi procurar identificar, sobretudo nas freguesias em que isso era mais particular, estamos a falar da freguesia de Ervededo, mas também naturalmente outras que pudesse acontecer para que em articulação com as juntas de freguesia se pudesse dispensar de imediato alimento para as três ou quatro semanas imediatas”, salientou. O Presidente disse ainda que há também freguesias a disponibilizar alimento e a ajudar na identificação dos prejuízos “porque conhecem todos os seus habitantes e têm conhecimento direto, sobre os afetados”.

Quando questionado sobre a reflorestação da área ardida e erosão do solo, o autarca referiu serem tarefas de intervenção emergente e que a autarquia tem duas brigadas de sapadores florestais que irão intervir em algumas situações de contenção.

 

 Sara Esteves

Fotos: Carlos Daniel Morais


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29/08/2025

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