Produtores defendem classificação da castanha como fruto fresco

Dinis Pereira, produtor e responsável pela empresa AgroMontenegro, em Rio Bom, concelho de Valpaços, rejeita qualquer comparação da castanha com frutos secos como a noz ou a amêndoa. “Quem chama isto fruto seco está redondamente enganado”, disse.

Este produtor é ainda operador de mercado e explicou que apenas através de um processo de desidratação artificial, a castanha atinge níveis de humidade semelhantes aos frutos secos. “A castanha fresca tem 80% ou 90% de humidade. Para chegar aos 16% são precisos quatro ou cinco dias de secagem a temperaturas elevadas”, explicou.

Alertou ainda para as más práticas na grande distribuição. “Se a castanha fosse tratada como fruto fresco, não estava a 26 ou 27 graus, com lâmpadas em cima, a desenvolver fungos ao fim de três dias”, afirmou, sublinhando que a exportação é feita “em contentores de frio”, ao contrário do que acontece com os frutos secos.

“AS CASTANHAS SE NÃO TIVEREM EM CÂMARAS DE FRIO NÃO SE CONSERVA DE MANEIRA NENHUMA”

Dinis Pereira tem um investimento “elevado” em arcas frigoríficas, exporta castanha para vários países, incluindo América do Sul e América do Norte e tem de ir em contentores de frio. “Também exportamos amêndoa e já não é preciso ir no frio”.

Para o produtor, a reclassificação é “crucial” para a sobrevivência económica da região. “Se a castanha deixar de ter rentabilidade, esta economia morre. Entre 80 e 90% da economia local assenta essencialmente na produção de castanha”, afirmou, acrescentando que a empresa coloca milhares de toneladas no mercado e emprega cerca de 40 pessoas na época da castanha. Na empresa trabalha ainda fruta fresca como maçã e cereja.

“COMO FRUTO SECO FECHAM-NOS AS PORTAS E NÃO CONSEGUIMOS FAZER UM INVESTIMENTO, POR EXEMPLO, NUMA CÂMARA FRIGORÍFICA”

Também Lino Sampaio, produtor de castanha e presidente da Agrifuturo, considera essencial a mudança de categoria. “Não estamos a lidar com um fruto seco. É pôr a verdade nas castanhas”, afirmou, defendendo que a reclassificação beneficia toda a cadeia, desde o agricultor ao consumidor final.

Segundo Lino Sampaio, a atual classificação impede o acesso a apoios fundamentais. “Como fruto seco fecham-nos as portas e não conseguimos fazer investimentos, por exemplo, numa câmara frigorífica”, explicou, sublinhando que o frio é hoje indispensável para garantir a conservação do produto, sobretudo face às alterações climáticas.

O produtor alertou ainda que, sem estruturas de frio, a castanha tem uma validade muito limitada. “As castanhas por si só tinham um mês de validade, se tanto. Hoje, todos os agricultores vão ter de ter espaços de frio. É quase obrigatório”, afirmou.

Lino Sampaio defende que a mudança deve ser reivindicada a nível nacional e europeu, destacando também o impacto social da medida. “Enquanto associação estamos a despertar a situação e a alertar para a sua correção” (…) “Com mais ajudas, podemos dizer às pessoas mais novas que vale a pena investir na terra e no castanheiro. É uma cultura com futuro e muito promissora”, concluiu o responsável pela Agrifuturo, associação criada para valorizar o setor da castanha em Valpaços, fornecer apoio técnico aos produtores para enfrentarem pragas e doenças e servir de elo entre proprietários e trabalhadores.

NO PÓS-COLHEITA, A CASTANHA TEM UM TRATAMENTO DIFERENTE DOS FRUTOS SECOS

José Gomes Laranjo, professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) explicou que a distinção entre fruto fresco e fruto seco assenta no estado natural do fruto após a colheita. “A castanha, pelas suas características, é um fruto fresco, não é um fruto seco”, afirmou.

Segundo o investigador, a castanha apresenta cerca de “50% de humidade, quando os frutos secos têm cerca de 15%”, o que permite atividade metabólica após a colheita. “Esta maior percentagem de humidade faz com que a castanha, em condições de armazenamento, tenha atividade metabólica, o que não acontece com os frutos secos”, explicou.

José Gomes Laranjo acrescentou que os frutos secos se caracterizam por um elevado teor de gordura, “40%, 50%, 60%”, enquanto a castanha tem “cerca de 2%”. Sublinhou ainda que a castanha exige conservação em frio para travar doenças, nomeadamente a ‘Podridão castanha’ provocada pelo fungo ‘Gnomoniopsis’. “Se nós guardarmos a castanha abaixo dos cinco graus, inibimos a entrada em atividade do fungo e impedimos a degradação da castanha”, disse.

Do ponto de vista legal considerou “muito importante” que a castanha fosse tida como um fruto fresco, alertando para a confusão junto dos consumidores em geral. “Há pessoas que compram castanhas e, por acharem que são frutos secos, põem-nas ao sol. Isso é pior. Quem se põe ao sol são os frutos secos”, referiu acrescentando que em termos de apoio do Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC), “tem resultados ou efeitos diferentes nos apoios e nos pagamentos diretos, sendo maiores nas culturas que produzem frutos frescos”.

AS GRANDES SUPERFÍCIES E OS CONSUMIDORES NÃO DEVEM TRATAR A CASTANHA COMO FRUTO SECO

Carlos Ramos, em representação do secretariado da Refcast – Associação Portuguesa da Castanha, reforçou que o aparecimento de doenças nos últimos anos tornou indispensável a cadeia de frio. “Chegou-se à conclusão de que essa doença pode ser controlada com o frio, o que reforça a ideia de que a castanha é fruto fresco”, afirmou.

Segundo Carlos Ramos, esta classificação é também fundamental para a distribuição. “A cadeia de frio deve manter-se desde o fornecedor, que são as grandes empresas que vendem e tratam a castanha sempre em cadeia de frio, até às grandes superfícies, como acontece com outros frutos frescos”, defendendo que a informação deve chegar ao consumidor, que “não deve tratar a castanha como fruto seco, nem guardá-la na cozinha, por exemplo, mas sim no frigorífico”.

“GOSTAMOS DE LIDERAR A FILEIRA, POR ISSO ESTAMOS À FRENTE DESTA EXIGÊNCIA”

Miguel Lopes, vereador da Câmara Municipal de Valpaços, que considerou a reivindicação dos produtores “totalmente legítima”. “A castanha é uma monocultura nesta região e um produto muitíssimo importante para a economia local”, afirmou.

O autarca explicou que a classificação como fruto fresco tem impacto “nos subsídios agrícolas e no acesso a fundos comunitários para investimento no armazenamento, como câmaras frigoríficas”. “Hoje, se os produtores e agentes económicos se não tiverem a castanha em frio, não conseguem entregar o produto aos supermercados em boas condições”, disse, acrescentando que a decisão terá de ser tomada “ao nível do Governo central e da União Europeia porque não é só a nossa região e Portugal, todos os países têm esta problemática”.

“Somos a região que produz melhor castanha do mundo e gostamos de liderar a fileira, por isso estamos à frente desta exigência”, terminou por dizer o vereador Miguel Lopes.

Atualmente o concelho tem perto de 2000 produtores de castanha de Denominação de Origem Protegida (DOP) e quase quatro mil hectares de soutos. É na Serra da Padrela, que se situa a maior mancha de castanha judia da Europa, sendo paralelamente um dos principais centros de produção de castanha de Portugal e onde se pode encontrar a maior mancha contínua de castanheiros de toda a Península Ibérica. Aqui encontram-se as variedades de castanha judia, predominante, longal, lada e cota. A castanha do concelho de Valpaços é exportada para toda a Europa, Estados Unidos da América, Brasil e Canadá.

 

Sara Esteves

Fotos: Carlos Daniel Morais